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Em três frases

O que o estudo encontrou

Não são respostas a um questionário. São 313 planos escritos pelos próprios artistas no momento em que sentaram para organizar o futuro — e, lidos em escala, eles contam a mesma história.

Fortes no artístico e relacional

Propósito, produção, palco e rede de contatos são os ativos das carreiras. Criar, tocar e se conectar é o terreno mais firme.

Frágeis na gestão e no negócio

Comercial, digital, financeiro e estrutura concentram as lacunas. Oito das nove categorias de gestão têm saldo negativo.

O que mais se quer é o que menos se domina

As categorias mais desejadas são as mesmas em que os artistas se reconhecem mais frágeis. Cada artista acumula, em média, quatro lacunas críticas.

Contexto

Um mercado que cresce sobre carreiras frágeis

O Brasil é hoje o 8º maior mercado de música gravada do mundo, com crescimento de 14,1% em 2025, mais que o dobro da média mundial. Esse vigor convive com carreiras organizadas, em sua maioria, de forma precária: apenas 12,5% dos artistas contam com empresário ou estrutura equivalente, metade tem a principal fonte de renda fora da música e a satisfação com a própria carreira é a menor da série histórica.

Artistas, empresários e profissionais do mercado concordam em um ponto: o planejamento estratégico da carreira está entre as principais dificuldades dos artistas. É daí que o estudo parte: o que os próprios planejamentos têm a dizer sobre isso?

Mercado

8º

maior mercado de música gravada do mundo

Carreiras

12,5%

dos artistas têm empresário ou estrutura equivalente

Satisfação

2,48

de 5 pontos; era 2,9 em 2021

Fontes: IFPI, Global Music Report 2026; Pró-Música Brasil, 2026; Pesquisa Empresariamento Artístico 2025 (5ª edição).

O material

De onde vêm os dados

Entre 2019 e 2026, 313 planejamentos estratégicos conduzidos em consultoria com artistas e projetos musicais de diferentes gêneros, regiões e estágios de carreira. Os planos foram anonimizados e os dados são tratados sempre de forma agregada, nunca individual.

O que entrou na análise

Cinco campos de cada plano: visão, missão, valores, objetivos e a matriz SWOT. São os campos em que o artista descreve o que é, o que tem, o que falta e o que quer.

Como os planos foram lidos

Os 17.252 itens de texto foram lidos por análise de conteúdo, e as categorias emergiram do próprio material: 15 categorias, em quatro grupos. Conta-se em quantos planos cada uma aparece, não quantas vezes é mencionada.

Três medidas

Saldo de capacidade (força menos fraqueza: o que a carreira domina), aspiração (objetivo ou oportunidade: o que ela quer) e gap entre aspirantes (entre os que desejam, quantos ainda têm como fraqueza).

Resultados · 1

Fortes no artístico, frágeis na gestão

O saldo de capacidade mostra, para cada categoria, se ela aparece mais como força ou mais como fraqueza nos planos, em pontos percentuais.

aparece mais como fraqueza aparece mais como força Rede de relações e parcerias +32 Propósito e autenticidade +15 Circulação ao vivo +7 Produção e lançamentos +6 Contexto e barreiras +1 Audiência e público -2 Legitimação -8 Posicionamento e identidade -10 Planejamento e organização -13 Comunicação e material -14 Conhecimento de mercado -14 Estrutura, equipe e profissionalização -15 Sustentabilidade financeira -25 Presença digital e dados -35 Gestão comercial e booking -45

Saldo de capacidade por categoria. Fonte: elaborado pelos autores a partir do corpus de 313 planejamentos.

Do lado positivo estão os ativos das carreiras: rede de relações (+32), propósito (+15), circulação ao vivo (+7) e produção (+6). Do lado negativo, o caso mais forte é o da gestão comercial e booking (−45): vender o próprio show é, de longe, a dificuldade mais comum. Logo atrás vêm presença digital (−35), sustentabilidade financeira (−25) e estrutura e equipe (−15).

Resultados · 2

O que as carreiras querem é quase unânime

Sustentabilidade financeira aparece como objetivo em 94% dos planos; audiência, em 92%; circulação ao vivo, em 91%; presença digital, em 87%. Com exceção da circulação ao vivo, que é um ativo, as categorias mais desejadas são as que aparecem entre as maiores fraquezas.

% dos planos em que a categoria aparece como objetivo ou oportunidade Sustentabilidade financeira 94% saldo -25 Audiência e público 92% saldo -2 Circulação ao vivo 91% saldo +7 Presença digital e dados 87% saldo -35 Conhecimento de mercado 84% saldo -14 Legitimação 83% saldo -8

As seis categorias mais desejadas e o saldo de capacidade de cada uma. Fonte: elaborado pelos autores a partir do corpus de 313 planejamentos.

Consciência não é o problema: os artistas sabem o que falta. Está registrado, com todas as letras, nos planos que eles mesmos escreveram.

Explore as categorias

Como está cada frente da carreira?

Toque em uma categoria para ver as três medidas juntas: o que já se domina, o quanto se deseja e a distância entre as duas coisas. Os números vêm do mesmo corpus de 313 planos.

Gestão e operaçãoInserção e resultadosIdentidade e propósitoContexto

Gestão comercial e booking

Gestão e operação da carreira · força em 20% dos planos, fraqueza em 65%

Saldo de capacidadeforça − fraqueza
-45
Aspiração% que deseja
40%
Gap entre aspirantesdesejam e têm como fraqueza
70%

A fraqueza mais comum de todas: vender o próprio show. Só 40% a colocam como objetivo, sinal de que muitos tratam a venda como consequência, não como frente de trabalho.

Fonte: elaborado pelos autores a partir do corpus de 313 planejamentos (2019–2026).

Leitura

Fazem gestão no dia a dia. Não se reconhecem como gestores.

Esses artistas negociam cachê, articulam contatos, organizam agenda, administram recursos. Só que, como observou a pesquisadora Susan Coulson ao entrevistar músicos britânicos, eles não se reconhecem como empreendedores. A carreira não começa pelo impulso de empreender; começa pelo desejo de ser músico. A gestão entra como consequência, raramente como projeto, e por isso essas competências raramente são desenvolvidas de propósito.

A identidade de artista está construída, elaborada e defendida. A de gestor da própria carreira, não.

A segunda chave é a conversão de capitais, descrita pelo sociólogo Michael Scott. Os artistas analisados têm os capitais — propósito e produção, rede de relações, reconhecimento em construção — e falham no passo seguinte: convertê-los em sustentação econômica. Rede de relações com +32 ao lado de gestão comercial com −45 é o retrato dessa conversão interrompida. Conhecer as pessoas certas não vira contrato sem alguém que saiba vender, precificar e negociar, seja o próprio artista, seja quem o representa.

E os dados não mostram recusa ao negócio: 94% dos planos aspiram à sustentabilidade financeira. A tensão não está entre querer ou não querer o comércio. Está entre querer e não ter os meios.

Leitura

Ter um empresário faz diferença?

A Pesquisa Empresariamento Artístico 2025 compara artistas com e sem representação profissional em quatro dimensões. Em todas, os artistas com empresário apresentam indicadores mais favoráveis.

Satisfação com a carreira

3,20 vs 2,38

Em escala de 5 pontos, com e sem empresário.

Faturamento com shows

80%

dos artistas com empresário faturam acima de R$ 1.000 mensais. Sem empresário, 38% faturam abaixo desse valor.

Volume de shows

100%

dos artistas com empresário ouvidos pela pesquisa fazem ao menos um show por mês. Sem empresário, 47% fazem menos de um show remunerado por mês.

Acesso a editais

20%

dos artistas com empresário aprovaram e realizaram projetos de fomento. Sem empresário, 47% nunca tentaram se inscrever.

O empresário não cria os capitais do artista, mas ajuda a fazer a conversão que o artista, sozinho, tem dificuldade de fazer. O mercado já sabe disso: a importância do empresário na carreira recebe nota média de 4,7 em 5 entre todos os grupos respondentes.

Fonte: Pesquisa Empresariamento Artístico 2025, 5ª edição.

Onde agir

O que isso significa para quem trabalha com carreiras

As lacunas das carreiras musicais brasileiras têm endereço certo, e ele não é o talento.

1

Para empresários, escritórios e produtoras

O valor que o mercado entrega não está no talento, que o artista já tem, nem na rede, que ele já cultiva. Está na conversão desses ativos em carreira sustentável: vender, precificar, negociar, estruturar, organizar o digital. Essa demanda já está formulada pelo próprio artista, que a registra como objetivo em mais de 80% dos planos.

2

Para quem forma profissionais da música

O conteúdo prioritário está identificado: gestão comercial, presença digital, finanças e estruturação de equipe. Mas essas lacunas aparecem quase sempre misturadas a identidade, propósito e linguagem do campo artístico. Cursos precisam ensinar gestão a partir da realidade do artista.

3

Para as políticas públicas de cultura

Editais que financiam apenas a produção atacam o lado em que os artistas já são fortes e deixam intacto o gargalo da gestão. Um ciclo de fomento que inclua planejamento, estruturação comercial e formação tem mais chance de produzir carreiras que se sustentam depois que o recurso acaba.

4

Para o artista que gere a própria carreira

As competências de gestão podem ser desenvolvidas, contratadas ou compartilhadas, e saber onde está a lacuna já é parte do caminho. Olhar o próprio plano com as categorias deste estudo é um bom ponto de partida: o que já é força, o que é objetivo e, entre os objetivos, o que ainda aparece como fraqueza.

Sobre a autora

Anita Carvalho apresentando

Anita Carvalho

Empresária artística, pesquisadora e professora. Sócia da Música e Mídia Produções e fundadora do Music Rio Academy. Autora da Pesquisa Empresariamento Artístico desde 2017, a mais longa série histórica sobre gestão de carreiras artísticas no Brasil. Doutoranda em Economia Criativa, Estratégia e Inovação pela ESPM-Rio, sob orientação do Prof. Dr. João Luiz Figueiredo, coordenador do PPGECEI e do Laboratório de Economia Criativa (LEC/ESPM). Atua como palestrante e consultora, articulando pesquisa acadêmica e prática de mercado.

Coautores

João Luiz Figueiredo — Coordenador dos programas de mestrado e doutorado em Economia Criativa, Estratégia e Inovação (PPGECEI/ESPM-Rio) e do Laboratório de Economia Criativa, Desenvolvimento e Território (LEC/ESPM). Veranise Dubeux e Diogo Robaina — Professores do PPGECEI/ESPM-Rio.

Sobre este relatório

Versão para o mercado do artigo O que os artistas querem — e por que é tão difícil alcançar? O que dizem 313 planejamentos estratégicos de carreiras musicais brasileiras, aprovado em avaliação por pares e apresentado na Conferência Internacional em Marketing, Comunicação, Tecnologias e Aplicações (ICMCT&A 2026), realizada na ESPM Rio entre 28 e 30 de outubro de 2026, com publicação nos anais do evento.

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